quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Contam Que... (Lendas de São João Del Rei) - Lincoln de Souza


INTRODUÇÃO

LENDAS

A falta de um registo especial, que lhe assegurasse vida menos efêmera, a quase totalidade das mais interessantes lendas de minha terra natal - a tradicional cidade mineira de São João del-Rei - tenderia fatalmente a desaparecer, por isso que, apenas conhecida por aquela boa "gente do tempo antigo", com a mesma se finaria, em não distante futuro, no silêncio da cova.
Foi, então, tendo em vista que as lendas constituem, entre outras, a riqueza espiritual, de um POVO ou de uma nação, que pensei em dar á estampa este trabalho, sem nenhuma intenção literária, recolhendo, para registo e divulgação, apenas as lendas que selecionei em meio de inúmeras outras despidas de interesse e, até mesmo, de nexo. Dentre as que aqui figuram, duas somente já haviam merecido o prestígio da letra de fôrma através, aliás, da pena de vários escritores ilustres. Incluí-as neste trabalho simplesmente para que se tornem ainda mais conhecidas.
Vários motivos, independentes de minha vontade, impediram-me realização mais ampla, com referência ao assunto. Os traços essenciais das lendas, porém, ai estão, - o necessário ao fim que tive em vista.
*
Como subsídio impresso, vali-me apenas da obra de Bernardo Guimarães - Maurício ou os Paulistas em São João del-Rei, da qual sintetizei o capitulo relativo à lenda da Casa da Pedra, visto que meus narradores conheciam dela apenas traços vagos, imprecisos, que não me satisfaziam absolutamente.
*
Não passará despercebida, de certo, a um observador a interferência de Deus, dos santos, do demônio e dos defuntos na quase totalidade destas lendas. Isto se explica pelo espírito profundamente religioso do povo mineiro, máxime do são-joanense.
*
O Irmão Moreira, que figura numa destas lendas, não é uma entidade fictícia: existiu realmente. Há, numa das salas da Santa Casa de Misericórdia de minha terra, um retrato seu, a óleo, mandado colocar como tributo de gratidão, pelos benefícios que ele lhe prestou.
*
Quando da 3ª edição de "CONTAM QUE...", um critico menos versado em assuntos folclóricos observou, como notável descoberta, que algumas lendas ali registadas se narram como tendo ocorrido em outras cidades do Brasil.
Quem estuda a história das lendas sabe, porém, que existe uma curiosa similitude entre elas, não apenas quando comparadas com as de um mesmo país, mas igualmente com as de outras partes do mundo, o que faz crer na sua estranha universalidade.
Escrevendo em O Jornal sobre o meu modesto trabalho, o Sr. Gustavo Barroso, que é, sem favor, um erudito em matéria de folclore, teve oportunidade de mostrar a identidade da lenda da mula sem cabeça na China, na Bretanha e na terra em que nasceu Tiradentes
Em O Sertão e o Mundo, pág. 9, escreve aquele acadêmico:
"Quando se estuda o folclore de vários países, ou regiões do mundo, chega-se à conclusão de que entre todos há analogias mais ou menos profundas".
E a pág. 259 da mesma obra:
"Em três escolas divide-se o estudo da novelística ou mitografia, que, geralmente, se chama folclore. A primeira é a mitológica, tendo á sua frente os irmãos Grimm, de Gubernatis, Max Müller, Atanasiev, que procura explicar as manifestações semelhantes de todos os folclores, como reminiscências religiosas e mitológicas dos povos de origem comum e os seus personagens, como símbolos de fenômenos naturais, mitos solares ou lunares, etc. A segunda é a histórica, chefiada por Kôhler, Benfey, Gaston Paris, que nega essa significação mitológica e afirma a sua origem histórica asiática, sendo levadas suas formas pôr meio dos viajantes, dos literatos, dos marinheiros, para os diversos países onde aparecem, com ou sem transformações. A terceira, mais moderna, é a antropológica, que se baseia no poligenismo, afirmando que os motivos folcloristicos, apesar de semelhantes, nasceram independentemente uns dos outros, que as mesmas condições produzem em lugares diversos as mesmas manifestações de arte popular, que essa similitude de contos e poesias surge de meras coincidências acidentais. E defendem essa escola Andrew Lang e Joseph Bédier".
Os estudos e observações do Sr. Gustavo Barroso levaram-no, finalmente, á melancólica afirmação que faz à página 276 de sua citada obra: "Dia a dia, vou notando a origem européia e oriental de coisas folclorísticas, que julgava inteiramente nossas. Dia a dia, vejo, nesse ponto, diminuir o patrimônio das nossas verdadeiras manifestações".
Creio que, depois deste ligeiro esclarecimento, ninguém poderá mais exigir que se apresentem lendas absolutamente originais, seja com relação ás de São João del-Rei, seja com referência às de qualquer outra parte do mundo.
*
Finalizando, devo dizer que foi com esforço não pequeno que consegui recolher as lendas deste livro. Exceto a da Casa da Pedra, todas as que aqui figuram obtive-as ouvindo, dias seguidos, os mais antigos habitantes da histórica cidade em que nasci.
A todos que tão generosamente cooperaram para a publicação deste trabalho, que só vale pela sua finalidade cívica, os meus mais vivos agradecimentos.
Lincoln de Souza.



CRIANÇA DESAPARECIDA



Em vão, durante todo o dia, aquele bando de escravos varava campos e matas, em todas as direções, à procura do filho mais novo dos senhores, que desde cedo desaparecera.
Durante a tarde inteira brincara com os irmãos, no pátio da fazenda - dizia-se - depois se afastara para os lados da senzala e, daquele momento em diante, ninguém mais lhe soube o paradeiro.
A noite, após baldada busca, em intervalos mais ou menos longos, de hora em hora assomava à velha porteira da fazenda um escravo cansado, faminto, coberto de pó, julgando que outro companheiro mais feliz já houvesse encontrado e conduzido a casa o pequeno fugitivo. Era, porém, grande a surpresa quando iam ficando a par da triste realidade.
E todos foram voltando, todos - até o último... Desceram ao fundo dos precipícios, galgaram serras, percorreram capoeiras e selvas, foram até a pirambeira perto da lavoura de café, sondaram todos os fundões do córrego, indagaram dos lavradores da redondeza, dos tropeiros da estrada: tudo inútil. Ninguém o encontrara, ninguém o vira, ninguém!
A agonia da pobre mãe, mais do que a do pai, era indescritível. Soluçava, rezava, alucinada. Queria o filho, vivo ou morto, fosse como fosse - queria-o! "Procuras-em-no mais, toda a vida, sempre!..." - exclamava num pranto lancinante. Não, não era possível, Deus, aquele pequenino anjo de três anos, perdido na noite imensa, na mata imensa, povoada de felinos sanguinários! ... E, quando, com infinita dificuldade, a impediam de sair, como uma louca, para talvez lançar-se no despenhadeiro da divisa, eis que ouviram, lá fora, uma voz débil, quase imperceptível, de criança. Era ele! Era ele que voltava, assim mesmo como pela manhã, lindo, limpo, cabeceando de sono e pedindo à mãe que o fizesse dormir.
Em vão, crivaram-no de perguntas.
- Foi uma moça, mãe... - e não sabia dizer mais nada.
No domingo seguinte, toda a família dirigiu-se ao arraial para, como de costume, ouvir missa. Penetraram no modesto templo rural. Desta vez cem mais fervor, porque iam dar também graças a Deus pelo verdadeiro milagre, que fora a reconquista do ente querido já dado como morto.
Na igreja, os olhinhos espertos do garoto passeavam distraídos pelos anjos dourados das paredes, pelos painéis apocalípticos do fôrro, pelos ornamentos fulgurantes dos nichos... Eis senão quando, cheios de infantil surpresa, viram lá longe, lá longe...
-Mãe!... - e puxou-lhe de leve o vestido de cassa. - Olha: está lá a moça que me levou para casa!
- Onde, meu filho? Onde? E levantou depressa a vista do rosário, na ânsia de conhecer a criatura que, de tão nobre, nem lhe quisera aparecer para o abraço comovido de gratidão.
- Está lá, mãe... lá em cima... Olha!...
E o pequenino indicador do inocente, com assombro de todos, apontou, no altar-mor, a imagem de Nossa Senhora das Graças que, no seu nicho todo azul, banhada na luz pálida dos círios, envolta em seu manto de estrelas, parecia sorrir...


A BISBILHOTEIRA


Embuçada no seu negro capote, com o escuro lenço em volta do queixo cobrindo-lhe a cabeça toda branca, encorujada e pergaminhenta, era o tipo clássico da velha capoteira, atualmente desaparecido.
Pela manhã, muito cedo, entrava na igreja do Carmo, molhava os dedos nodosos na pia da água benta, persignava-se, ajoelhava-se e entrava a bater contas sobre contas do seu ensebado rosário. Mal acabava a missa do Carmo, ia ainda apanhar a da Matriz. A noite, não perdia novenas nem terços, chovessem pedras. Confessava-se quase todos os dias e comungava freqüentemente. Os próprios padres já se aborreciam com o crescente beatismo daquela velhota abominável. Chamava-se Gertrudes, mas toda gente a conhecia por Tia Tude. Tia Tude benzia contra o quebranto, ensinava remédios, fazia companhia a enfermos e, não raro, exercia o papel de alcoviteira. Vivia do produto de rendas, por ela tecidas, e de monstruosas bonecas de pano, que fazia com trapos pedidos às costureiras. Entrava em todas as casas, dava-se com todo mundo. Almoçava um dia com um, jantava outro dia com outro, e falava de todos é de tudo. Nada havia que ela ignorasse, nem mesmo os fatos mais íntimos, passados entre quatro paredes, sem testemunhas e guardados com absoluta discrição. Parecia que a velha bruxa adivinhava. De casa em casa, ia ela contando, como um jornal falado, as novidades da terra e, ao mesmo tempo, tomando nota do que via para passar adiante. Não contente com o que farejava durante o dia, ela, à noite, postava-se por trás da persiana do seu mísero casebre no Morro da Forca e, sem que ninguém a visse, ficava horas e horas a espiar os que passavam na rua, o ouvido atento às suas conversas.
A vida alheia era o seu fraco.
Uma noite, como de costume, estava em seu posto de bisbilhoteira, quando alguém, que ela não tinha visto aproximar-se, lhe bateu aporta. Tia Tude abaixou-se, deslizou como uma gata para os fundos, sem fazer o mínimo ruído, e de lá voltou pisando forte, para fazer crer que não estava ali atrás da persiana, no seu desprezível mister.
- Quem é? - perguntou, a medo, do lado de dentro, sem se mostrar.
- Um desconhecido, que lhe vem pedir o favor de guardar um objeto até amanhã.
Tia Tude, prestimosa como sempre - "Pois não!" - abriu um palmo apenas da janela, estendeu o braço esquelético e recolheu o que lhe entregavam: uma tocha.
Não deixou a velha de ficar intrigada com o caso. O relógio bateu horas e ela, depois de fechar a porta a chave, deitou-se.
No dia seguinte, logo cedo, a primeira coisa que fez foi correr os olhos pelo objeto que lhe entregara o desconhecido, e que ela colocara cuidadosamente a um canto da sala. Seu espanto foi tremendo: em lugar de uma tocha, ali estava, ainda sujo de terra fresca, nada menos que um fêmur de defunto!...
Tia Tude, transida de pavor, viu nisso um aviso celeste. E contam que nunca mais a sua boca se abriu para falar da vida alheia.


CHICA MAL-ACABADA


Era tal o ciúme daquela criatura que, todos os domingos, na igreja, ao invés de ouvir atentamente a missa, metia um espelhinho no livro de orações e, fingindo que rezava, punha-se a espionar, de baixo, o amante, que tocava violino no côro.
Chamava-se Francisca das Dores, mas só era conhecida pela alcunha de Chica Mal-Acabada, tal o seu físico de anã e as suas feições grosseiras de botocuda.
Certa vez, uma companheira a surpreendeu no templo com os olhos fincados no espelho. Compreendendo tudo, advertiu-a à saída que aquilo era um enorme pecado. Deus podia castigá-la. Chica Mal-Acabada riu-se. Qual! Não aconteceria nada!
Um domingo, estava ela, como sempre, a olhar o amante pelo espelho, quando viu lá dentro qualquer coisa medonha, indescritível.
Soltou um grande grito que alarmou os fiéis, e rolou ao chão, desmaiada. Levaram-na para casa, ainda sem sentidos. Quando voltou a si, não teve mais uma hora de sossego: a visão diabólica perseguia-a já fora do espelho, por toda parte. Recolheram-na ao pavilhão dos loucos da Santa Casa de Misericórdia, num estado comovente. Estava, às vezes, calma, conversando com uma amiga quando, de repente, tapava os olhos com as mãos e se punha a gritar de um modo arrepiante:
- É ele! É ele! É ele!... E rolava por terra, numa crise tremenda, espumando, mordendo-se e batendo a cabeça contra o assoalho, despedaçando o vestido... Depois, passado o acesso, caía num profundo estado de prostração, deitava-se e dormia logo.
A noite, as crises redobravam de intensidade. A horas mortas, todos dormiam, quando os gritos desesperados de "É ele! É ele! É ele!..." despertavam e punham em sobressalto os doentes, irmãs de caridade e empregados da pia instituição. Os guardas então seguravam-na fortemente, a fim de evitar que ela cometesse desatinos. Fórmulas e mais fórmulas que os médicos receitavam, benzeduras de padres levados pelas amigas, amuletos de feiticeiros que o amante lhe colocava ao pescoço, de nada valiam: cada vez piorava mais. Três meses depois, era quase um cadáver. Foi nesse estado, de extrema fraqueza, que uma pneumonia a surpreendeu. O seu último dia foi horrendo, impressionante. Ela jazia no leito, sob uma febre violentíssima, quando lhe veio a derradeira crise. Antes mesmo que tivessem tempo de contê-la, saltou da cama aos costumeiros gritos de "E ele! É ele! É ele!..." e, em segundos, meteu furiosamente os dedos pelas órbitas, arrancou o olho direito, em seguida o esquerdo, e os espremeu nas mãos ensangüentadas, dando gargalhadas sinistras, numa volúpia sinistra. Depois, caiu por terra, arquejando com aqueles fundos buracos no rosto, jorrando sangue, a boca a escorrer espuma e baba...
Quando a levantaram, estava morta.


A MULA SEM CABEÇA


Venâncio voltava tarde do arraial do Rio das Mortes e estava quase a entrar na cidade quando ouviu, não longe, relinchos de alimária. Por uma natural associação de idéias, pensou, incrédulo, nas mulas sem cabeça que - dizia-se - às sextas-feiras da quaresma, depois da meia-noite, erravam pelas encruzilhadas, deitando fogo e atacando os que encontravam em seu trajeto.
Aflito para chegar a casa (já havia batido meia-noite e era justamente uma sexta-feira da quaresma). Venâncio caminhava então apressadamente quando, nas proximidades do cruzeiro do Betume, avistou uma tremenda mula sem cabeça, toda em chamas, que corria velozmente em sua direção. Sem possibilidade de fuga, o animal em poucos segundos já estava a alguns metros de distância, Venâncio não teve outro recurso senão enfrentá-lo e, quando este o atacou, desferiu-lhe com a foice que trazia, e com a qual fora fazer uma roçada num sítio, um golpe tão certeiro e tão firme, que lhe fez voar longe a pata dianteira. O monstro soltou um relincho terrível e desapareceu para as bandas do Rio das Mortes.
Pela manhã, soube Venâncio que, muito cedo, perto do local da sinistra ocorrência, encontraram sobre a relva a mão de uma mulher. Como havia rastro de sangue, foram-no seguindo e, a uns duzentos metros, mais ou menos, deram com uma pobre lavadeira do bairro, caída de bruços numa vala, morta, uma perna partida e a mão direita decepada...


A MISSA DAS ALMAS


A veneranda senhora Virgínia Cabral despertou de seu profundo sono, com as conhecidas badaladas do sino da Matriz de N. S. do Pilar, chamando os fiéis para o tradicional ofício religioso denominado "Missa das Almas".
- "Quê! Já 5 horas?" - E, sem consultar o relógio, ainda sonolenta e tiritando de frio, vestiu às pressas sua eterna saia preta de viúva, passou o xale em volta dos ombros e rumou para a igreja.
Na sua miopia de octogenária, não reparou nas feições dos que lá se encontravam, mas percebeu que o templo se achava repleto e o padre, no altar-mor, se movia de um para outro lado com tal leveza como se fosse feito de fumaça.
O rosário ia correndo lentamente entre os seus velhos dedos descarnados, os seus olhos se perdiam num êxtase beatifico ante a imagem da Virgem, quando ouviu o relógio da torre bater horas . Começou mentalmente a contá-las. Céus, não estaria enganada?! - Quatro... cinco... seis... sete... Sentiu tremer-lhe todo o corpo. Oito... nove... E quando soaram as doze horas - doze horas da noite e não do dia como por encanto, tudo desapareceu: padre, sacristão, fiéis, as luzes se apagaram e as portas se fecharam por si!.. Em a nave imensa, um silêncio de túmulo!
Então, presa naquele recinto solitário, em plena treva, e compreendendo, afinal, que participara de um ofício celebrado e assistido por mortos, tomada de indescritível pavor, rolou pesadamente ao solo, desacordada...
E quando, no dia seguinte, o sacristão abriu a igreja, para a costumeira Missa das Almas, d. Virgínia continuava ali, junto à porta principal, por onde certamente procurara fugir, lívida como um cadáver, ainda sem sentidos, sobre a frialdade dos ladrilhos...


O SACRÍLEGO


Meia-noite já havia soado, quando um desconhecido bateu à porta da casa de padre Antônio, lá para as bandas do Tijuco.
Vinha buscá-lo. Para que? Só a ele poderia dizer. Via-se estampada no semblante do misterioso indivíduo uma aflição imensa. Despertaram o prestimoso sacerdote, que não tardou a ir ao encontro de quem o procurava.
- Desculpe incomodá-lo, senhor reverendo, mas é tão necessária a sua intervenção!... Trata-se de salvar uma alma. Não podia deixar para amanhã.
- Ora, meu filho, nada tenho que desculpar. Eu me sinto verdadeiramente feliz quando posso socorrer os que precisam de mim. Confissão? Extrema-unção? Onde?
- Igreja de São Francisco de Assis.
Padre Antônio ficou perplexo, sem atinar... Fazer o que, num templo, aquela hora?
O outro, compreendendo a estranheza, esclareceu:
- Imagine que um pobre pecador comungou sem que se houvesse confessado, momentos antes de morrer. Venho aqui pedir-lhe a grande esmola de retirar a hóstia da boca do cadáver.
- Mas já deve ter-se delido...
- Não. Afianço-lhe que não.
Padre Antônio pensou na intervenção divina.
- Está bem! Vestiu-se, tomou o breviário, colocou o chapéu na cabeça e pôs-se a caminho, acompanhado do desconhecido.
O bom religioso não sabia explicar a causa, mas sentia qualquer coisa de anormal, uma certa inquietação de espírito, que lhe provocava arrepios, de quando em quando...
Um quarto de hora depois, defrontavam a igreja: estava aberta e toda iluminada, como em dia de festa. Entraram. Nenhum vivente. Bem ao centro da nave, sobre a essa, um caixão pobre, coberto de chita preta, ordinária sem dourados. Caminharam para ele. Padre Antônio levantou-lhe a tampa, descobriu o rosto do defunto, abriu-lhe, a custo, a boca fria e rígida, e extraiu-lhe a hóstia. O desconhecido tinha razão: não se dissolvera, estava perfeita. Depois de guardá-la no altar-mor e rezar por alma do morto, diante do caixão cada vez mais impressionado, o piedoso sacerdote voltou para casa.
Só na rua, refletiu que não vira o sacristão nem à entrada nem à saída da igreja. Parou, intrigado, e volveu o olhar em direção ao templo: estava fechado e as luzes apagadas. Achou tudo aquilo fantástico, desconcertante... E pôs-se a caminho, de novo, quando ouviu alguém chamá-lo. Era o desconhecido. Esquecera-se de agradecer-lhe.
Até ali, Padre Antônio não havia reparado nas suas feições, mas agora, depois que ele lhe estendera as mãos frias, horrivelmente frias, num aperto angustioso, notou que aquela fisionomia não lhe era estranha. Ele já vira alguém com aqueles mesmos cabelos empastados, aqueles olhos amortecidos, aquela boca repuxada e sem cor... Onde? Quando? Aquele rosto... Ah! - lembrou-se - e quase desmaiou, num pavor; num arrepio de morte: o homem que o fora chamar, o que estava ali à sua frente, não era outro senão o que jazia, momentos antes, dentro do caixão - o defunto!...
E Padre Antônio, antes mesmo de voltar a si de seu grande assombro, viu o estranho indivíduo empalidecer ainda mais, tornar-se de súbito vaporoso e desfazer-se, em poucos instantes, como a fumaça ao vento, na solidão da noite...


O SEGREDO


No pequeno sobrado em que funcionou, há tempos, um departamento do Ministério da Agricultura, situado atrás da igreja de São Gonçalo Garcia, residia outrora um opulento capitalista, de nome Rogério, casado com uma senhora cuja perversidade era o terror da mísera escravaria às suas ordens.
Entre os escravos havia uma jovem mulata chamada Julieta, cuja beleza e juventude alvoroçaram, logo que chegou, os sentidos do senhor, homem forte, másculo e ainda relativamente moço.
A maneira branda por que, desde o primeiro dia, começou a tratar a nova escrava, despertou incontinente os ciúmes da esposa, dona Jacinta, que exigiu o mais depressa possível a venda da rapariga, com o que não concordou Rogério, visto as razões secretas que tinha para conservá-la em seu poder.
Suspeitando do esposo, pôs-se dona Jacinta a espioná-lo, habilmente, e foi sem grande dificuldade que ficou sabendo que Julieta era algo mais do que simples escrava...
Não deu a menor demonstração do que acabava de verificar. Tornou-se até mais carinhosa para com o marido, a quem, dali por diante, deixou de falar na venda de Julieta.
Um mês depois, Rogério fazia anos. A mulher quis, ela própria, fazer o jantar. Aliás, não foi um jantar apenas melhorado que dona Jacinta apresentou no dia, mas um verdadeiro banquete. Era grande a variedade de pratos que enchiam a mesa, mas, entre todos, aquele de que mais gostou Rogério foi um de picadinho de coração, muito de seu agrado e de que só ele comeu e repetiu mais de uma vez, deliciado.
Findo o repasto, horas depois, precisou de Julieta. Chamou-a em voz alta. Não teve resposta. Estaria no quintal? Gritou da varanda, com mais força. A rapariga não respondia. Mandou que a procurassem. Ninguém a encontrou. Desconfiado de que a mulher a tivesse vendido à sua revelia, interpelou-a ardilosamente:
- Será que a mandaste a alguma parte, Jacinta?
- A Julieta?
- Sim, a Julieta! - exclamou Rogério, já de mau humor.
- Bem, o coração tu o jantaste... O resto não sei... pergunta ao Bento...
*
Tudo fora feito em segredo: o assassínio, a abertura do peito, a retirada do coração, com a desgraçada ainda viva, fortemente amarrada e com a boca entupida de pano, para que não se ouvissem seus gritos. Em seguida, o enterro ali mesmo, onde se consumara o hediondo crime.
Os escravos sabiam que Julieta tinha ido, durante o dia, com a senhora e o Bento - escravo mau, que aplicava os castigos - para uma capoeira próxima da cisterna. Depois disso, nunca mais a viram. Curiosos, perguntaram ao odiado companheiro e algoz o que tinham ido fazer os três no lugar de onde não mais voltara a bonita mulatinha.
- Ali há um segredo. . Não posso dizer... Pagaria com a vida...
E o local da tragédia ficou sendo, para os escravos, O Segredo, - denominação esta que, mais tarde, se estendeu aos arredores e até hoje se conserva.


O DEFUNTO QUE O DIABO LEVOU


O coronel Carlota (coronel da antiga Guarda Nacional) era um riquíssimo traficante de escravos, já idoso, calvo e gordo, que residia com a família num sobradão quase centenário, à época, nas proximidades da igreja do Carmo.
A enorme riqueza material desse homem contrastava, porém, com sua imensa miséria moral. Era um indivíduo perverso, de tal maneira perverso, que martirizava os infelizes escravos que lhe pertenciam, não porque cometessem algum delito, mas unicamente para vê-los delirar de sofrimento. Muitos deles fugiam ou se suicidavam, quando lhe caíam nas garras. Aliás, não eram só os desgraçados pretos as vítimas desse tarado satânico - a família também sofria terrivelmente sob seu jugo implacável. Era corrente que a filha mais velha fora por ele próprio envenenada, por apenas recusar um fazendeiro bronco, de idade avançada, enfermiço e autor de muitas mortes, o qual, só pelo seu ouro, o coronel queria para genro.
*
Prosperavam os negócios do desumano traficante de escravos e preparava-se ele para uma viagem ao sertão, quando o destino lhe mudou o itinerário, mandando-o viajar para o cemitério.
A notícia de sua morte não causou nenhuma tristeza, como era de esperar, dada a antipatia que a cidade em peso lhe votava. Quase ninguém subia as escadas do velho sobrado, para ver a máscara do morto ou levar pêsames à família. A repulsa era evidente.
Ora, nesse dia, um estranho acontecimento se passou, de que só mais tarde se veio a saber. Foi o caso que, tendo ficado, um instante, o cadáver sozinho na sala, quando a esta voltou a primeira pessoa da casa, uma grande surpresa a esperava: o defunto havia desaparecido!
Houve o justificado alarme. A família, aturdida, assombrada, não achava explicação para o fato a não ser a intervenção do sobrenatural. "Era um velho tão mau, que falava tanto de Deus... - comentavam.
Baldadas todas as buscas, e a fim de evitar escândalo, colocaram no caixão, para fazer peso, um grosso tronco de bananeira e depois o fecharam. Quando alguém, que chegava, pedia licença para ver o morto, diziam:
- Queira desculpar, mas não é possível. Está-se decompondo horrivelmente. Tivemos ordem de não abrir mais o caixão.
A tarde, os funerais foram feitos, com meia dúzia de pessoas, apenas, a acompanhar o corpo.
E dizem que, naquela noite, longe, muito longe da cidade, por uma deserta encruzilhada, passou, a horas mortas; numa carreira louca, um cavaleiro de esporas fosforescentes, alto, magro, anguloso, chispando fogo e levando à garupa de um cavalo fantástico o cadáver do velho coronel, envolto em lúgubre mortalha, que esvoaçava sinistramente ao vento...


SENHOR DO MONT'ALVERNE


A mesa da confraria da irmandade de São Francisco de Assis reunira-se, pela segunda vez, na casa da respectiva Ordem, a fim de deliberar a respeito de uma imagem do Senhor do Mont'Alverne, que ia ser colocada no altar-mor da referida igreja.
Tomando parte na assembléia brasileiros e portugueses, por um natural impulso de patriotismo, queriam os primeiros que a imagem fosse esculpida aqui, os segundos, em Portugal.
Ainda dessa vez não foi possível acordo, ficando o caso para ser discutido em outra assembléia.
Eis senão quando, à casa da Ordem foi bater um peregrino, desconhecido na cidade e que, à mingua de recurso, pedia pousada por uma noite. Atendido pelo encarregado, foi-lhe destinado um aposento no porão, onde ele depressa se acomodou, fechando a porta a chave.
Não trazia nenhuma bagagem, um simples bornal sequer, nada.
No outro dia, ninguém viu o estranho personagem. O quarto que lhe deram estava; com a porta e janelas fechadas. Não quiseram incomodar aquele pobre velhinho de barbas de neve: talvez estivesse muito cansado. Ao segundo dia, porém, o quarto continuava na mesma situação. Gomo, desde que chegara, não o viram sair ao menos uma vez, nem ouviram o mínimo ruído lá dentro, suspeitaram que ele houvesse adoecido, a ponto de não poder erguer-se do leito, ou mesmo que tivesse morrido. Já inquietos, então, bateram à porta. Silêncio absoluto. Tornaram a bater, com violência, depois. Nenhum rumor, nenhum sinal de vida. Forçaram a porta: estava fechada a chave. Certos já de um sombrio acontecimento, resolveram arrombá-la. Para fazê-lo, chamaram a polícia e testemunhas e, ao primeiro golpe da machado que um soldado vibrara, a fechadura saltou. A escuridão no interior era quase completa. Abriram imediatamente as janelas: o misterioso peregrino havia desaparecido e, em seu lugar, uma imagem do Senhor do Mont'Alverne, de tamanho natural, pregado à cruz, encheu de pasmo e de deslumbramento a todos os presentes, tal a sua maravilhosa perfeição.
Acreditou-se logo que o peregrino não era senão um santo, que realizara aquele milagre. A nova correu célere pela cidade. E de todos os pontos, numa verdadeira romaria, vinha gente ver a imagem, que poucos dias depois foi transportada, com grande solenidade, para a igreja de São Francisco de Assis, onde até hoje se acha, no respectivo altar-mor.


O RETRATO


Padre Ernesto lia com fervor o seu breviário, quando uma senhora de certa idade, em cuja fisionomia se estampavam bondade e distinção, modestamente trajada, foi pedir-lhe que confessasse o filho, que se achava doente, guardando o leito.
Ele não a conhecia, como aliás não conhecia quase ninguém, visto ser de fora e ter chegado à cidade havia pouco. Sem demora, largou o livro, pôs o chapéu na cabeça e saiu. Na rua, ela falou-lhe:
- O senhor não dirá que foi chamado expressamente para vê-lo. Proceda de maneira que a sua presença não o impressione. Ele está sofrendo do coração e qualquer abalo o pode vitimar. Residimos na rua de Santo Antônio, na quarta casa do lado esquerdo de quem vem do largo do Rosário. Não tem número, mas não haverá dificuldade em encontrá-la. Eu daqui sigo para Barro, em busca de um remédio e como, ao meu regresso, já não o encontrarei mais em casa, porque me demoro, desde já me despeço do senhor e muito de coração lhe agradeço a caridade. Boa noite.
- Boa noite. Vá com Deus!
- Amém.
Padre Ernesto ia pelo caminho pensando no que devia dizer, a fim de justificar sua presença e não alarmar o enfermo. Após andar cerca de vinte minutos, estava em frente da casa indicada. Bateu à porta. Veio atendê-lo uma jovem, toda de luto fechado. Depois de cumprimentá-la:
- Posso fazer uma visitinha ao querido doente?
- Pois não! Faça o favor de entrar.
Entrou. A beira do leito do rapaz:
- Estou hoje correndo o bairro, Sr... Como se chama?
- Alfredo, um seu criado.
- Agradecido. Mas, como ia dizendo, Sr. Alfredo, estou correndo o bairro, para travar conhecimento com as minhas ovelhas. Sou novo aqui. O senhor é católico, já sei...
- Católico, apostólico, romano.
- Muito bem. E tem-se confessado regularmente?
- Tenho, mas este mês...
- Compreendo: as coisas mundanas o têm absorvido mais que a religião... E se, por acaso, morresse de repente, agora, amanhã?!
Não sabemos nunca o dia da nossa partida... E, se tal acontecesse, não iria em pecado? Já pensou nisso, Sr. Alfredo?
- Francamente, não pensei... O senhor tem razão.
- Bem. Já que aqui estou, não quereria aproveitar a ocasião e resgatar essa falta?
Rapaz bastante religioso, não relutou: confessou-se.
No dia seguinte, foi grande o espanto de Padre Ernesto quando soube que a ovelha da véspera amanhecera morta, com espanto também do próprio médico, visto que o estado do doente não parecia grave.
A família, que simpatizara com o confessor de Alfredo, chamou-o para a encomendação do corpo, em casa. Padre Ernesto foi. Após o oficio fúnebre, os seus olhos deram com a ampliação fotográfica de um busto de mulher, na parede da sala de visitas, cercado de flores.
Reconhecendo nela a mãe de Alfredo, que tão providencialmente o fora chamar para confessá-lo na véspera de sua morte, falou a uma das moças da casa:
- É verdade, a senhora sua mãe... Imagino-lhe a angústia! Desejaria confortá-la no transe que atravessa. Posso vê-la?
- Ah! Impossível! Nossa pobre mãe...
Padre Ernesto franziu a testa, sem compreender.
- Impossível?
E fixou novamente o olhar no retrato da senhora que o procurara.
- Sim, infelizmente, - disse a moça.
E numa infinita tristeza, com os olhos inundados de lágrimas:
- Faz hoje, precisamente, três meses que ela morreu...


O IRMÃO MOREIRA


Filho de uma das mais distintas famílias são-joanenses, era Francisco Moreira da Rocha um incorrigível estróina, cuja vultosa fortuna dissipava à larga com bebidas, mulheres fáceis, jogatinas e toda sorte de pândegas e libertinagens.
Sua fama correra todos os quatro pontos cardiais da cidade. Era o terror dos lares honestos. Não havia quem lhe desconhecesse as aventuras escandalosas, e a vida dissoluta que levava parecia jamais ter fim.
Certa vez, porém, errava a horas mortas pelas imediações da igreja do Carmo quando, inesperadamente, saindo de uma esquina, passou rente a ele uma estranha mulher, alta, ondulante, de grandes olhos perturbadores, elegantíssima em rico vestido negro, como um lírio envolto em crepe...
Moreira acompanhou-a, fascinado. Falou-lhe. Ela sorriu, sem responder. E, como um
sonâmbulo, sem que desse por onde andava, entrou em casa dela - uma casa muito branca, inteiramente de mármore e cercada de ciprestes...
No outro dia, com o corpo dolorido, os membros lassos, entorpecidos, despertou. Nem no leito de plumas em que se deitara na véspera, nem nos braços de seda daquela misteriosa criatura, que nem uma única palavra sequer pronunciara, mas sobre uma lousa fria do cemitério do Carmo!...
Moreira compreendeu, imediatamente, transido de pavor, que a mulher com quem ele dormira não era senão o demônio, ao qual sua alma talvez já pertencesse de todo. Numa inquietação que aumentava cada vez mais, sob uma crise de nervos raiando pela loucura, procurou depressa um padre, a quem contou o que lhe sucedera. Depois de confessar seus pecados e profundamente arrependido, assentou de levar vida pura e piedosa. Para começar, no mesmo dia retirou do banco seus haveres e distribuiu-os com a pobreza e instituições de caridade. Em seguida, tomando um hábito e com o nome apenas de Irmão Moreira, saiu para o mundo, esmolando para os necessitados, pregando o bem e curando enfermos, como Jesus, com o simples contato de suas mãos.


A CASA DA PEDRA (*)


Era naqueles velhos tempos coloniais em que paulistas e portugueses - estes apelidados emboabas, uns ao norte e outros ao sul, rasgavam a extensa província das Minas Gerais, à cata do ouro.
Em São João del-Rei, emboabas e paulistas, cada qual de seu lado e por sua conta, se entregavam à mineração aurífera, sendo capitão-mor, na época, Diogo Mendes que, em companhia da filha e de Fernando, seu sobrinho e secretário, residia no local que é hoje o arraial de Matosinhos.
Entre os paulistas - segundo conta Bernardo Guimarães em seu livro "Maurício ou os Paulistas em São João del-Rei" - havia um, de nome Gil, rapaz antes trabalhador, mas desprotegido da fortuna, que passou a enriquecer a olhos vistos, depois que foram para sua companhia um bugre, por ele salvo da morte após um sério conflito entre paulistas e aborígines, chamado Irabuçu, e Judaíba, sua filha.
Propalava-se que Irabuçu sabia de uma fabulosa mina onde, diariamente, apanhava ouro aos punhados, para levar ao seu salvador. Um dos portugueses pelos patrícios apelidado Minhoto, que votava a Gil ódio tremendo, entendeu de deitar as mãos ao velho índio, auferindo com isso dois proveitos: - ficar senhor da mina, aonde o selvagem o conduziria sob ameaça de morte, e fazer mal ao inimigo, estancando-lhe a fonte de riqueza.
Sem demora, tratou de pôr em execução o plano que havia traçado. Aliciou patrícios, que
sitiaram o índio, quando uma tarde partia para a mina, mas este desapareceu como por encanto sob uma moita, de onde saiu, numa carreira fantástica, um enorme gato do mato, que pôs os portugueses em debandada, julgando o índio transformado em animal. Outras ciladas lhe preparou o Minhoto, mas em vão. Irabuçu, cercado no campo, sem possibilidade de escapar, quando todos o imaginavam seguro, desaparecia misteriosamente. Ninguém mais, então, queria saber de capturá-lo, julgando-o pactuar com o demônio. À vista disso, o Minhoto foi à casa do capitão-mor, a fim de, com a gente deste, destemida e bem municiada, aprisionar Irabuçu, repartindo entre ele, o capitão-mor e o secretário o ouro recolhido da mina.
Recebeu-o Fernando, o qual, depois de o ouvir com interesse, fê-lo ciente de que o ouro da mina seria todo de el-rei, não cabendo a ele Minhoto, um grão sequer. E sem reparar no desespero do patrício, que se julgava miseravelmente roubado, deu ordens para que lhe trouxessem Irabuçu, a fim de que este revelasse local da mina de onde saia o ouro, sem que a el-rei fosse ter o devido quinto.
Preso Irabuçu e levado à presença do capitão-mor e sua gente, negou-se ele a fazer qualquer declaração a respeito, muito menos a levá-los à mina. Ameaçaram-no de suplícios horríveis e, por fim, de morte. Nada o demovia de sua firme decisão. Foi só ante a ameaça de torturarem sua filha Judaíba que Irabuçu aquiesceu...
Amarrado como uma fera, lá foi ele, o pobre velho, escoltado por seis portugueses, armados até os dentes, em direção ao fabuloso Sésamo.
Depois de penosa caminhada de léguas e léguas, feita com o propósito de despistá-los,porquanto a mina distava da povoação apenas alguns quilômetros, chegaram, por fim, ao cair da noite, em frente a uma grande furna muito alta, cujo interior...
Cedamos, porém, a pena a Bernardo Guimarães, que vai, no seu estilo vigoroso, descrevê-la e narrar a trágica aventura dos portugueses e do índio no interior dessa furna, conhecida hoje por Casa da Pedra:
"Irabuçu acendeu na fogueira o seu archote e foi entrando pela caverna. Os emboabas o acompanharam de perto, benzendo-se e rezando quanta oração sabiam.
Para fora da lapa nada mais se via; a escuridão da noite, que começava a descer, e a fumaça da fogueira tudo escondiam. Estavam segregados completamente da luz do céu, e franqueavam os lôbregos umbrais do reino das trevas.
Acompanhemo-los e vamos também admirar, à luz do archote de Irabuçu, as maravilhas dessa imensa e misteriosa gruta.
O pavimento é plano, liso, coberto de areia e de folhiço, como um solo de aluvião; os emboabas penetram com facilidade pela gruta a dentro. Logo à entrada, entre os brancos pilares da arcada imensa, que serve de pórtico aos outros, observa-se um curioso e estupendo fenômeno, Um enorme rochedo está como pendurado da abóbada, à semelhança de lustre colossal, colocado à entrada daquele templo subterrâneo. Mas o monstruoso lustre está envolto em crepe pardacento, suas luzes estão extintas, e é mister brandir o archote em volta dele para admirar-lhe as dimensões titânicas, e ver como se acha preso à cúpula por um ligamento proporcionalmente tão delgado, que faz estremecer. Está ali como a espada de Dâmocles, suspensa por um fio, aquela massa enorme de milhares de quintais, como ameaçando esmagar, pulverizar com sua queda os imprudentes mortais que ousarem passar-lhe por baixo, para devassarem os mistérios daqueles áditos tenebrosos.
Mas Irabuçu e seus companheiros não estão ali para admirar semelhantes maravilhas; passam por debaixo do imenso candelabro sem prestar-lhe atenção, internam-se mais alguns passos, e acham-se no recinto de um vasto salão, amplo e circular, à maneira da nave de magnífica rotunda. Curvava-se sobre suas cabeças uma abóbada de pasmosa elevação, e, de profunda que era, mal seria apercebida ao fraco clarão do archote, se não fora o cintilar das pedras úmidas, polidas e ponteagudas, de que estavam crivados o teto e as paredes da gruta.
A luz daquele archote demasiado escassa para alumiar tão vasto recinto, o interior da lapa, já de si mesmo curioso e surpreendente, tomava um aspecto solene e fantástico, que inspirava, a um tempo, pavor e assombro. Os muros e a abóbada pareciam cobertos de ornatos e esculturas caprichosas, de frisos, relevos, cornijas, colunas, nichos e volutas em desordenada profusão. Aqui via-se um altar mutilado; ali cavava-se no muro um trono em ruínas; além ressaltava da parede um magnífico púlpito; mais além um renque de colunas decepadas se estendiam a perder-se na escuridão. E tudo isso se revestia de brilhantes e variadas cores reverberando à luz do facho com reflexos de ouro e rubis, de esmeralda e safira, de topázio e ametista.
Era uma gruta de estalactites, curioso brinco, em que a natureza parece comprazer-se dando as mais singulares e caprichosas figuras a essas rochas formadas no côncavo das cavernas pela congelação de gotas de águas infiltradas durante séculos através das fendas dos rochedos.
Além de tudo isso, uma multidão de cordas de grossura enorme descendo perpendicularmente da abóbada, em uma altura talvez de mais de vinte braças, vinham embeber-se no chão. Dir-se-iam cordões, que suspendiam imensas cortinas destinadas a velar os mistérios daquele estupendo e maravilhoso santuário. Eram raízes de árvores seculares, que, cravando-se pelas fendas da abóbada e achando em baixo o espaço vazio, alongavam-se até o solo, onde vinham beber a seiva, para alimentar a robusta e vicejante selva, que cobrindo o corixeu da gruta, balanceava lá em cima - a mais de cinqüenta braças de altura - a coma verde-negra às auras livres do céu. Em tudo se parecia aquele antro com o interior de um templo ciclópico, por onde roçara a asa estragadora dos séculos, ou passara a mão vandálica do bárbaro, destroçando e mutilando tudo.
A luz avermelhada do archote batendo nas miríades de pontas de estalactites, que incrustavam toda a abóbada, reverberando em chispas cintilantes, produzia o mais deslumbrante efeito. Os portugueses não puderam conter um grito de surpresa e assombro, e estacaram por instantes diante de tamanha maravilha.
- Que é isto, santo Deus!... - exclamavam uns. Tudo isso é ouro e pedraria!... é aqui!... estamos enfim na mina...
Outros, porém, pensavam estar em um palácio de fadas, e acreditando que o bugre não era mais do que um formidável encantador, começaram a tremer por sua sorte, receando ali ficarem encantados por todo o sempre.
Para se moverem foi mister que Irabuçu os acordasse daquela estupefação. Já dois fachos se tinham consumido, e não havia um minuto a perder.
O índio avançou contornando o vasto salão, como procurando entrada a outros aposentos. Viam-se, com efeito, em torno aqui e acolá, grande número de fendas e arcadas de várias dimensões corredores que se perdiam na escuridão, e pareciam dar entrada a novos e vastíssimos compartimentos. O bugre penetrou pelo mais espaçoso desses corredores, seguido de perto pelos portugueses. Via-se de um lado, suspenso na muralha, um púlpito quase perfeito, de linda e grandiosa estrutura. Os emboabas cuidaram ver dentro dele um monge de joelhos e debruçado, com a fronte envolta em seu capuz. Já se ajoelhavam e persignavam, quando subitamente troou-lhes aos ouvidos uma voz horrível, antes um pavoroso mugido.
- Tupassumunga! - bradara Irabuçu com toda a força de seus pulmões. Os ecos das profundas cavidades reproduziram por largo tempo o grito estranho, em surdos e temerosos rugidos.
Imediatamente dois sanhudos e truculentos canguçus, rompendo das grutas interiores, passaram velozes como o raio por entre os portugueses, e desapareceram de novo na escuridão.
De susto ou abalroados, quase todos caíram por terra, e trêmulos, cobertos de suor gélido, não pensaram senão em encomendar a alma a Deus.
- Não tenham medo, meus brancos! - disse Irabuçu, com um sorriso calmo e satânico; estes bichos moram aqui; são uns gatinhos que vigiam o ouro de Tupan; foi para tocá-los para fora que Irabuçu gritou.
Estas palavras, proferidas em tom de diabólica ironia, não eram muito próprias para tranqüilizar os emboabas.
- Se temos de morrer sem falta, - murmurou um, com voz desfalecida - é melhor morrermos aqui mesmo; daqui não dou nem mais um passo para diante.
- Se temos de morrer - replicou outro, um pouco mais animado - tanto faz morrer aqui como acolá; vamos, companheiros!... pelo que vejo, já estamos no inferno em corpo e alma, e tão inferno é aqui como lá mais adiante.
O terror, tendo tocado ao seu cúmulo, converteu-se em coragem, como sói acontecer, nessa coragem dos que se julgam irremissivelmente perdidos, e que se chama coragem do desespero.
Guiados pelo índio, os emboabas avançaram resolutamente através de um dédalo de furnas, corredores, escaninhos irregulares, em que se achava dividida a gruta, à maneira de alvéolos de uma colméia gigantesca. Esses diversos compartimentos eram separados entre si por grossas massas de estalactites, que pendendo do teto vinham quase tocar ao chão, como feixes de colunas carcomidas pela base, ou como os canudos de um órgáo emborcado, e também por grandes camadas de estalagmites, que se erguiam do solo como restos de pilastras derruídas, ou de muros arruinados
Já o terceiro facho estava prestes a extinguir-se, ainda eles não haviam chegado ao tão suspirado alvo de tamanhas fadigas e perigos.
- Ainda estará muito longe essa maldita mina? - bugre endiabrado!... - bradou um dos emboabas. - Olha, não vá nos faltar o lume!.. se ficarmos às escuras não sei como daqui nos havemos de safar...

- Ficaremos sepultados em vida debaixo destas catacumbas, - acrescentou outro. -Voltemos, meus caros; isto não vai bem...
- É ali!... é ali!... - exclamou Irabuçu, apontando para uma solapa estreita, que se divisava a alguns passos de distáncia, na base de um enorme congesto de estalagmites, e pela qual mal poderia entrar um homem agachado.
- Ali!... naquele buraco! Deus me defenda de lá entrar!... ali só lagarto ou cobra...
Apenas um dos emboabas acabava de proferir estas palavras, desprega-se da abóbada e cai no meio deles uma jibóia enorme, de mais de braça de comprida e grossa como a perna de um homem, fazendo um ruído surdo como corda que despenca do alto de um mastaréu, e desdobrando-se rapidamente correu a esconder-se nas trevas, entre as anfratuosidades dos rochedos. O medonho réptil acordara sobressaltado pelo eco daquelas vozes estranhas e, deslumbrado pela luz, querendo fugir, se precipitara de uma alta cornija, onde estava a dormir tranqüilamente. Os portugueses murmuravam a tremer a oração de São Bento, advogado contra animais venenosos, e perderam de novo o ânimo de avançar.
- Meu Deus! meu Deus!... que será de nós!...	 exclamavam, quase a chorar de medo.	Se essa mina está lá nas profundezas dos infernos, guardada por tigres e serpentes, escusado é procurarmos lá ir. - Voltemos, meus amigos!... isso não está nada bom! -Voltemos quanto antes! - Irabuçu, meu velho, por piedade, tira-nos daqui para fora; deixemos isto para amanhã... livra-nos deste inferno!
- Essa cobra não tem veneno - respondeu tranqüilamente Irabuçu; - aqui há muita; é bom dar um tiro; elas fogem espantadas e não incomodam mais a gente.
- Pois vá! - disse um deles; e, sem refletir, trêmulo de impaciência, de frenesi e de terror, com mão convulsa engatilhou a escopeta e disparou o tiro.
O eco refrangido de gruta em gruta reboou como uma descarga atroadora; o ar agitou-se convulsionado; a chama do facho oscilou violentamente, e as sombras, que ali estavam, dançaram pelas paredes como um grupo de duendes. Uma nuvem de morcegos e corujas surdindo de todos os cantos revoaram em turbilhões, açoitando com as asas as faces daqueles hóspedes imprudentes, e acabaram por apagar completamente o facho, que ardia na mão de Irabuçu... Acharam-se todos subitamente mergulhados na mais completa e profunda escuridão!...
Os ecos do tiro, prolongando-se anda largo tempo em lúgubres mugidos pelas abóbadas soturnas, pareciam estar entoando um fúnebre de profundis sobre aqueles infelizes ainda vivos e já envoltos na escuridão dos túmulos.
-	Acode-nos Irabuçu!... só tu nos podes salvar!... vem dar-nos a mão!... por piedade, vem livrar-nos deste inferno!... Estas e outras exclamações faziam os míseros emboabas com voz tão suplicante e lastimosa, que cortaria o coração de outro qualquer que não fosse Irabuçu.
-	Irabuçu aqui vai!... acompanhem!... respondeu uma voz sepulcral, que parecia romper das entranhas da terra.
-	Irabuçu! Irabuçu! - bradavam ainda míseros, estorcendo-se nas ânsias do desespero.
Mas só lhes respondiam os ecos das cavernas subterrâneas remurmurando uns sons confusos e medonhos."
E dizem que, mais tarde, um sábio dinamarquês procedia a estudos mineralógicos no interior da Casa da Pedra, quando foi dar, numa sala estreita, profundamente escura, que a luz de um archote mal iluminava, com as ossadas muito brancas dos sete desgraçados sobre as quais enormes serpentes deslizavam de manso...
(*)	Para o Autor, o certo deve ser Casa "de" Pedra. Em São João del-Rei, porém, todos, mesmo os mais cultos, dizem e escrevem Casa "da" Pedra, razão por que é aqui adotada esta última forma.


CRÉDITOS :  Lincoln de Souza  /  http://www.saojoaodelreitransparente.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário